Um abalo sísmico em forma de crise e urgência. Jorge Bastidas, um programador venezuelano de 32 anos, viu sua vida virar de cabeça para baixo quando recebeu uma ligação de alerta sobre os terremotos na Venezuela enquanto estava a trabalho em Bogotá. A incredulidade inicial logo se transformou em desespero ao perceber a gravidade da situação, especialmente ao tentar, sem sucesso, entrar em contato com sua família. Com tantos anos de crises no país, a sensação de impotência o levou a agir.
Movido pelo desejo de ajudar, Bastidas criou o portal “Desaparecidos Terremoto Venezuela”, uma plataforma que permite que familiares registrem pessoas desaparecidas. “Era essencial ter um espaço onde as pessoas pudessem se encontrar e compartilhar relatos”, explica ele, que se sentiu frustrado por não conseguir estar presente fisicamente para ajudar. Em menos de quatro meses, a iniciativa já contava com mais de 82 mil registros, dos quais 29.486 permanecem sem contato, segundo informações verificadas por voluntários.
A falta de uma resposta oficial do governo venezuelano, que ainda não disponibilizou uma lista de desaparecidos, intensifica a angústia das famílias. Bastidas critica essa inação: “O governo tem recursos, mas não age”. Em contrapartida, no dia 4 de agosto, o governador de La Guaira mencionou um número muito menor de desaparecidos, criando ainda mais confusão e desconfiança entre a população.
Utilizando ferramentas de inteligência artificial, Bastidas desenvolveu o site em apenas quatro horas e meia após os tremores. A plataforma inicialmente permitia o cadastro de informações essenciais, mas rapidamente enfrentou desafios, incluindo um tráfego inesperado que levou a página a sair do ar. O site se tornou um ponto de referência, mesmo com tentativas de sabotagem que resultaram na alteração de milhares de registros. Bastidas, no entanto, estava preparado, com backups diários que garantiram a recuperação de dados.
A colaboração de outros venezuelanos na Argentina e a mobilização de informações sobre vítimas em hospitais foram cruciais para o sucesso da iniciativa. Daneli Hernández, uma advogada que trabalha com Bastidas, destacou o esforço conjunto de médicos e voluntários para registrar dados de pacientes e cruzá-los com os desaparecidos. A união de esforços trouxe esperança e, em alguns casos, notícias tristes, mas necessárias.
Alceo Angelini, um dos usuários da plataforma, viu seu primo reaparecer após ser registrado como desaparecido. Para ele, a ferramenta foi vital para garantir que alguém estivesse monitorando a situação de sua família. “Foi útil para nós, pelo menos para ter a tranquilidade de que alguém estava nos ajudando”, afirmou.
Apesar dos desafios, Jorge Bastidas planeja expandir o projeto, prevendo a criação de uma central de atendimento para verificar cada registro. “Não devemos esperar pelo Estado”, conclui. A luta por informações e conexões humanas continua, e a sociedade civil se ergue como resposta a uma crise que ainda não encontrou solução. Enquanto isso, as histórias de desaparecidos permanecem na memória coletiva, clamando por respostas e por um futuro mais seguro.


